DVSIPS(1/3) - Contra o ecletismo indiferentista

DVSIPS(1/3) - Contra o ecletismo indiferentista

Nota: Esta é a primeira parte de um opúsculo tripartite, que contará com três partes: na primeira, pretende-se provar a necessidade de se ter um mestre nos estudos filosóficos; na segunda, que, para o católico, ele deve ser preferencialmente Santo Tomás; na terceira, que o modo preferencial de se seguir a Santo Tomás é pela escola tomista tradicional.

Cor enim ingrediens duas vias non habebit successus

“O coração que anda por dois caminhos não será bem sucedido”

Ecclo 3,28

Antoine Goudin, começa a segunda dissertação preliminar de seu curso de filosofia com as seguintes palavras:

“Assim como a filosofia é necessária para o homem, também, para o estudioso de filosofia é necessário, dentre todas as seitas, eleger um único mestre, cuja doutrina sirva, dentro do mar turbulento das várias opiniões, como o astro que guia o marinheiro e cujos princípios, como um único fio, sejam seguidos de forma constante para que consiga sair do labirinto das dificuldades. Assim como o navio no mar, se permitir ser levado por vários ventos que sopram para direções contrárias não progride, mas corre perigo (...) assim como o cão que tenta perseguir muitas lebres não alcança nenhuma; do mesmo modo, a inteligência não é instruída pela mistura de princípios diversos, mas, antes, é confundida e oprimida; e, enquanto se apega a muitos mestres, não atinge perfeitamente a doutrina de nenhum, pois o coração que anda por dois caminhos, não será bem sucedido (Ecclo 3, 28), donde Sêneca adverta o estudioso que, se deseja chegar aonde quer, que siga um único caminho: não vagueie por muitos; pois isso não é caminhar, mas errar.”

O quão longe dessas admoestações não está o espírito moderno? Hoje em dia, o caminho proposto é aquele que se opõe diretamente ao do sábio dominicano: abandonou-se a exposição sistemática e ordenada da filosofia segundo uma única escola em favor de uma exposição, muitas vezes meramente cronológica e acrítica, da doutrina de diversos filósofos, marcada por certo indiferentismo ante as diferentes escolas filosóficas, ou até mesmo por um ceticismo de que qualquer uma delas possa chegar à verdade.

Contra essa tendência, nos adverte o Pe. Leonel Franca em sua história da filosofia:

“Sem crítica, a história do pensamento não passaria de um repositório morto de idéias, de um estudo sem vida, estéril e até prejudicial. Ante o desfilar vertiginoso de tantas opiniões contraditórias, as inteligências novas ou pouco afeitadas à reflexão poderiam levianamente inclinar-se a um ecletismo fácil ou deixar-se entrar dos esmorecimentos do ceticismo. Incumbe, por isso, ao historiador o dever de julgar os sistemas, joeirando-lhes o verdadeiro do falso, o certo do duvidoso, o inconcusso do controvertível, e assinando a cada filósofo a sua contribuição para o progresso ou atraso do saber. Assim se procede na história de todas as ciências. Assim se deverá proceder também na história da filosofia.”

O grande jesuíta, assim, diz que o historiador da filosofia não deve adotar uma abordagem meramente expositiva dos diferentes sistemas, mas julgá-los de acordo com a sua conformidade ou disconformidade com o critério da evidência, com os primeiros princípios da razão. Ignorar isso é ignorar a verdadeira natureza da filosofia. Muitos agem como se a filosofia não servisse senão para entender como diferentes mentes viram o mundo ao longo do tempo, como lidaram com os problemas que se lhe apresentavam, em suma, como se o objeto de estudo da filosofia fosse o pensamento dos homens. Contra tal concepção, brilha o imortal ensinamento de Santo Tomás, que diz que “o estudo da filosofia não serve para que saibamos o que os homens pensavam, mas qual é a verdade das coisas” (In De caelo, lib. 1 l. 22 n. 8).

Resta, portanto, saber como determinar a verdade dos diferentes sistemas. É verdade que, como disse o Pe. Leonel Franca, tal é feito aferindo se são conformes com os primeiros princípios da razão. Ocorre, porém, que tal análise envolve muitas dificuldades, de modo que seja patente a imprudência daqueles que desejam que os iniciantes nos estudos filosóficos, com a força do seu próprio engenho, sozinhos, julguem a verdade ou falsidade dos diferentes sistemas sem qualquer formação prévia: isso seria como enviar um navegador inexperiente ao mar turbulento. Por essa razão, Hugon explica que a mera seleção de elementos verdadeiros em diferentes sistemas filosóficos não pode ser um método de formação, antes, tal seleção já supõe um método e uma formação prévia:

“...o ecletismo não pode ser usado um método genuíno de se fazer filosofia, e isso por três razões: 1º A separação das coisas verdadeiras das falsas supõe meios, instrumentos e preceitos de seleção. Mas tais meios e preceitos já são o próprio método. Logo, o ecletismo antes de ser um método, supõe um método [prévio]. 2º Um método verdadeiro deve ser científico [no sentido clássico] e fornecer os meios para se aprender verdades novas e compará-las cientificamente. O ecletismo, contudo, é meramente histórico, só fornece as opiniões dos homens e não provê os meios para se encontrar a verdade com suas próprias forças. 3º [O ecletismo] é excessivamente perigoso. É contrário à prudência se apresentar ao verdadeiro e ao falso sem ter os princípios para discernir o verdadeiro do falso, principalmente quando se trata de jovens, para os quais a enganação é mais fácil. Logo, o ecletismo, se não for ele mesmo dirigido por outro método que traga as normas de se discernir o verdadeiro do falso é cheio de perigos. Donde os ecléticos ou tenham caído em vários erros, ou, vendo tantos sistemas e não sabendo a qual dar o seu assentimento, caíram no ceticismo.”

Desta forma, para que o que inicia nos estudos filosóficos não seja como a poeira que é arrastada para todos os lados, sendo movida por qualquer vento de doutrina, é necessário que tenha um mestre, alguém que lhe dê um norte, uma formação filosófica sólida para que ele possa julgar as diferentes opiniões de acordo com o critério da evidência.

Mas como saber quem será esse mestre? Como o estudante deve eleger que tipo de formação deverá receber? Se ele mesmo ainda não tem os critérios para avaliar com profundidade o mérito de todas as escolas filosóficas, como há de saber qual formação ter? Certamente, tal eleição não pode se dar por critérios exclusivamente intrínsecos, como se o estudante devesse previamente analisar todas as teses das diferentes escolas para saber em qual irá se formar, mas terá que se basear, em grande medida, em critérios extrínsecos pelos quais há de julgar a autoridade de determinado mestre e a competência de sua escola como um bom caminho para a verdade. Por basear-se em critérios extrínsecos, tal eleição envolve certo grau de . Não necessariamente de fé teologal, mas pelo menos de fé humana.

Dessa forma, o que propõe uma formação filosófica está, de algum modo, pedindo a confiança do estudante e algum grau de fé em alguma autoridade: o mestre da escola. O que busca uma formação aristotélica afirma a autoridade e confiabilidade de Aristóteles enquanto mestre apto a guiar no caminho da verdade, o mesmo para Platão, Santo Tomás, Duns Scotus, Suarez etc. Assim, se algum membro de alguma escola, por exemplo, a tomista, se propõe a dar uma formação filosófica de acordo com a metodologia de sua escola, está invocando a autoridade de Santo Tomás para ante o discente.

Fica, ainda, patente, que aqueles que dizem não fazer parte de nenhuma escola filosófica e se propõem a dar uma formação em filosofia estão como que se fazendo mestres de uma escola e invocando a sua própria autoridade e pedindo fé no próprio critério e nos seus próprios métodos. Quanto a estes, note-se como a sua postura é contrária à do Cardeal Caetano que, na introdução ao seu comentário à Suma Teológica, disse “não sou nem tão importante e nem tão arrogante a ponto de invocar a minha própria autoridade”. Tais homens pedem, ao menos, fé na sua autoridade de apresentar quais os problemas relevantes a serem apresentados, quais os argumentos que serão analisados, qual a ordem de apresentação e, frequentemente, quais os critérios que serão utilizados para determinar quais argumentos devem ser aceitos ou rejeitados.

Precise-se, contudo, que não se excluem completamente o uso dos critérios intrínsecos pelo inciante, pois, com efeito, como explica o Pe. Cerruti, mesmo aqueles que não têm formação filosófica podem possuir a chamada certeza vulgar ou natural:

“Além da certeza científica e filosófica, também a certeza natural, vulgar espontânea pode ser verdadeira e legítima certeza (...) A certeza chamada vulgar e natural é fruto não do estudo e pesquisa metódica, mas da atividade espontânea da inteligência que vê os primeiros princípios de ordem especulativa e prática e algumas conclusões deduzidas deles por raciocínio facílimo. -Está baseada de fato em motivo sólido e verdadeiro, mas dêste motivo não tem um tal conhecimento que lhe permita sempre explicá-lo prontamente e defendê-lo resolvendo diretamente as objeções que se lhe possam opor (...) é claro que se pode ter evidência de uma verdade sem contudo saber defendê-la diretamente as objeções, porque para isso pode ser necessário muita ciência e pesquisa. Por conseguinte, para conservar legitimamente uma certeza basta excluir as objeções indiretamente, isto é, pelo fato de ver que são contrárias à verdade de que temos evidência e certeza: pois uma verdade não pode contradizer outra verdade.”

Assim, o que inicia os seus estudos filosóficos, encontra-se em pleno direito de excluir previamente todas as propostas de formação que contrariem diretamente o que ele sabe ser verdadeiro por sua certeza natural e espontânea. Com efeito, muitas são as escolas filosóficas que se apresentam como manifestamente contrárias ao bom senso.

Tal exclusão, contudo, não é suficiente para a eleição de qual formação deve ser seguida, exigindo-se a aplicação de critérios extrínsecos, o que se fará na próxima parte deste opúsculo. Antes de findar esta parte, contudo, cumpre dissipar algumas objeções que podem ser feitas por leitores incautos que, movidos pela precipitação, podem levantar contra a nossa abordagem.

Primeiro, se se objeta dizendo que favorecemos muito os motivos extrínsecos às custas dos intrínsecos na eleição da escola filosófica e que, ao proceder de tal maneira, estaríamos contrariando a natureza da filofia que é, essencialmente, um conhecimento intrínseco, revela-se uma total incompreensão do que é defendido neste opúsculo. Os critérios extrínsecos, bem como a fé na autoridade do mestre e da escola não substituem a investigação inrínseca da verdade. O que se propõe é a aplicação de tais critérios para informar a decisão prudencial de qual caminho seguir, de qual formação receber, de qual sentença julgar mais provável quando ainda não se concluiu sobre o seu mérito a partir de razões intrínsecas. O motivo do assentimento filosófico é, e sempre será, o critério intrínseco da evidência, como fora aludido pelo Pe. Cerruti. Outra coisa é o motivo de escolher esta ou aquela formação, ou de atribuit uma probabilidade extrínseca maior a esta ou aquela tese.

Com efeito, os motivos extrínsecos devem nos mostar qual mestre e qual caminho seguir para se chegar à verdade das coisas. O bom mestre é aquele vê e faz ver, que conhece e faz conhecer. Confiamos que ele vê, então o seguimos como guia no mar tempestuoso das diversas opiniões para que também vejamos a verdade com os nossos próprios olhos do nosso intelecto. (Evidentemente, também há certeza por motivos extrínsecos, como ocorre na fé teologal, mas a certeza filosófica é, necessariamente, intrínseca).

Estabelecido isso, também se dissipa de forma facílima a narrativa que alguns inimigos do tomismo levantam contra os tomistas dizendo “como podem os tomistas se oporem ao ecletismo se o mestre deles reconhecia a verdade onde quer que a encontrasse, mesmo em diferentes escolas filosóficas?”. Se se atenta à conclusão exata a que chegamos, ver-se-á que, em nenhum momento, se condena o reconhecimento da verdade em diferentes fontes, o que se condena é a ideia de que o estudante pode, antes do estudo formal das ciências e da obtenção dos hábitos intelectuais necessários para distinguir o verdadeiro do falso em questões tão difíceis, se lançar nas diversas disputas confiando em seu próprio engenho e no de um mestre que, dizendo-se imparcial, invoca a própria autoridade. Santo Tomás colheu a verdade de múltiplos lugares já possuindo uma boa formação. Somente após ter se formado com Santo Alberto Magno é que discordou dele neste ou naquele ponto, ainda concordando em grande parte.

Quanto à diferença entre a busca legítima da verdade em múltiplas fontes e o ecletismo ilegítimo, convém considerar as palavras de Urraburu que, após dizer:

“Quem poderia, de forma justa, repreender o esforço de selecionar coisas ótimas e juntá-las, de forma apta, em um corpo [unificado]? Houve, contudo, um vício comum nas escolas que se chamam de ecléticas: a falta de um critério certo e seguro pelo qual se guiariam na distinção [do verdadeiro e do falso] nas doutrinas contrárias. Por isso, comportaram-se quase da mesma maneira que costumam se comportar aqueles mediadores que, em qualquer disputa, mandam que ambas as partes divergentes cedam um pouco de sua opinião, obviamente para chegar a um acordo. O que de mais absurdo se poderia imaginar? O que se pode pensar de mais absurdo? Com efeito, muito frequentemente ocorre que apenas uma parte sigua a verdade e a justiça e outra erre profundamente; que uma ensine uma doutrina evidentemente verdadeira e outra seja convencida de um erro manifesto. Ora, reconduzir o verdadeiro e o erro à concórdia é um sacrilégio. Portanto, é uma obra absurda e cética querer recolher de um lado e de outro vários pontos de doutrinas opostas em um único corpo”.

Explica como essa postura é distinta da adotada pelos doutores escolásticos, dizendo:

“De resto, se alguém, admitindo e pondo-se em segurança nos primeiros princípios e em todas as verdades que ou a razão evidente demonstra ou a Fé divina propõe para serem firmemente afirmadas, rejeitar como falso tudo aquilo que for contrário a essas verdades e, nas demais coisas, selecionar aquelas coisas que a mente considerar mais conforme à razão natural (...) não sou eu quem repreenderia esse tipo de ecletismo, ou não o recomendaria, pois penso que esta foi a maneira de filosofar que adotaram primeiramente os Padres da Igreja e, logo depois, os Doutores Escolásticos, os quais, tudo o que encontraram nos autores antigos que fosse ou conforme à doutrina eclesiástica, ou apto para defendê-la e conforme à razão, arrebataram avidissimamente e empregaram, como outras tantas pedras habilmente talhadas, para construir o mais firme e igualmente belíssimo edifício das ciências. E é pelo mesmo empenho que convém estarem animados aqueles que desejam tornar-se insignes na doutrina filosófica, principalmente quando se deparam com várias sentenças controversas nas escolas católicas; buscando sempre a verdade com a maior sinceridade, abraçando-a de bom grado onde quer que seja encontrada (...) Embora, ao fazer esta escolha de doutrina, devam ser consultados principalmente aqueles que mais se destacaram entre os Escolásticos, e nominadamente Santo Tomás, e aqueles que, seguindo as pegadas de tão grandes Doutores, ilustraram a doutrina Escolástica e a enriqueceram com novas adições. Creia em mim quando digo: até agora, não vi nenhum monumento da ciência humana ser erguido que seja ou mais verdadeiro, ou mais rico, ou mais sólido, ou mais perfeito em seus diversos gêneros do que a Filosofia Escolástica; se não tivessem tido as mentes uma tristíssima ignorância ou esquecimento, não teriam podido rastejar por toda parte, e quase até triunfar, as leviandades mais vazias dos erros modernos, assim como não podem durar as trevas naqueles lugares em que brilha o sol do meio-dia, nem avançar as raposas onde vigiam cães generosos.”

Encerra-se, assim, a primeira parte deste opúsculo. Na segunda, aplicar-se-ão os critérios extrínsecos para comprovar a supremacia de Santo Tomás.

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